domingo, 30 de julho de 2017

Trem sem cabeça

Minha mente caminha como um trem sem cabeça
As palavras reclamam,
meus sentidos dominam
Minha dor se acomoda
Meus trilhos se desfazem

Com um olhar taciturno me vês,
Teus olhos me penetram
Meus sentidos aguçam
Minha dor se esvazia
E meus trilhos recompõem

Com mãos frias me tocas,
Tua superfície me invade
Meus sentidos se anulam
Minha dor reclama
E meus trilhos desmoronam

O que queres de mim não sei
Sei que meu trem é sem parada
Caminha pela noite
Desbravando o vento
Ferindo como uma lâmina de espada

Mas meus signos são simples
Não escondem ou reservam
Meu olhar calmo e estático
Atravessa o ar até tua cama

E com uma faca me feres
Meu sangue escorre em voltas
Se expandindo lentamente
Só então minha vida se abranda
E o trem segue na noitinha
Pedindo passagem

Andança

A marcha calma daquela tarde
abria a cabeça sem pressa
E enquanto andava lembrava do verso:
nada espero, nada temo, sou livre.
Cantando como um mantra para me livrar do que penso
E a tua falta me fazia perceber tudo em excesso
(como uma antena amplificando o que sinto):
o barulho das pedras atritando
entre o chão e os calçados,
o vento que uivava
ao passar pelas fendas e buracos da grande pedra
(como se cantando sobre minha solidão),
a respiração profunda dos meus pares
e o despertar ácido do meu coração.

Meu coração acorda num susto
Meu pulso reclama num baque
O frio vespertino me dói nos joelhos
Minhas articulações crepitam em pedido
Mas eu não entendo seus códigos
O caminho segue íngreme e tortuoso
A atmosfera, áspera e branca
O vento hostil corta a pele e dói nos ossos
Mas meus passos seguem retos
Meus pensamentos, distantes
E meu futuro continua incerto
Como uma luz ao passa numa fenda -
Rápida e cortante

A parede e eu


O que há entre mim e a parede?
No espaço etéreo, sem cheiro, sem nada
Entre mim e a argila branca-fria
Entre pó de cinzas e tijolos quadrados

Minha superfície te toca em sonho
Aqui, tento ler teus signos
Tento entender teus caminhos
E me frustro, teus pés me enganam

O que há entre mim e tua pele?
O que te toca enquanto dormes?
O que tu fazes quando ninguém te observa?
Lembras de mim quando te deitas na cama?

Essa noite eu não sonhei
Acordei numa luta sem propósito
E a parede ao meu lado me encara
Me olha com nojo e reclama
O que haveria entre nós?

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Dezembro



Meus punhos e braços são curtos e fracos 
Mas me visto e transfiguro
Te guardo como escudo
Porque do meu corpo faz calor 

E sem dizer, em dezembro,
Ela chegou
A noite longa
Meu pulso fraco 
A noite mansa
Que se fechava 
A carne magra 
Aquela angústia 
Quase um ano 
Estático 

Até que o céu gritou 
Um raio quebrou 
E reflexo no espelho
Irreconhecível, inegável 
Inabalável, triste e feio 
-O solstício austral-
Quebrou em um clarão 
O céu tremia, a carne pulsava 
Latente e mansa
Calma e transfigurada

Mas eu era derrota, e fraco 
E a ressaca me consumia 
Em carne viva, em sonho seco
Meu pulso leve nem aparentava 
Qualquer sinal de vida

A noite foi, deixando um rastro 
Deixou bem claro que  
Quando esquecida, renovaria 
Apareceria sem pretensão
Sem chocar, sem falar 
E ao calar, resurpreenderia
E traria de volta toda aquela solidão 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Cobertor



Virado ao contrário
No avesso
Calado

A tristeza é tão calma
A alegria, macia
Saudade não dá trégua,
A solidão, amiga

E, lembrando da praia,
-O gosto, o cheiro e o som
Passando pelo fogo e inferno-
Do metal vermelho em brasa
E de te ver pela luz fraca
Que o céu inteiro cuspia
Como se o mundo fosse uma fera
e o firmamento sua contenção
E por Deus, cada estrela que caia
Do frio calado-claro
Virava brasa antes de chegar ao chão

Parece que junto pedaço
Porque só vestindo o verbo que refaço,
Ressinto e te amo
Me visto de solidão
O verbo é meu cobertor de lã
Me protege de sua intenção
Me protege de mim
Me protege?

Mas não se foge da palavra,
Não se escolhe, não se cobre
Não se protege

Não se teima amar
Não se treina amar
Não se ama

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Monotemático

Cores sem tom
Roupas cinzas
Ruas sem gente
Gente sem cheiro

Guarda noturno que fecha a noite
Acordo o dia
Como fecho, como abro
Memórias fantasmas  consomem o sangue
Tua fantasma consome meu sangue
teu sangue consome meu sangue
Meu fígado
Meu baço
Entranhas
Meus laços
Se fecham em teus laços
Fecham em abraços
Te ama sem drama
Te ama e te beija  

Meu guarda roupa
Monotemático
Espera tua queixa
teu cheiro teu drama
Teu cheiro tua cama
Tua cama-calcinha
Seja toda minha
Que sou todo teu
Desde o dia que nasci
Até o dia que morri
Na tua coxa tua cama
Sem medo sem drama
Te amo no cheiro
Te amo na cama
Te amo no drama
Te amo no caos
Te amo no chão
Te amo sem chão
Te amo sem amar
Te amo sem tempo
Te amo sem jeito
Te amo com jeito
Te amo e isso
Me basta
Teamar e só

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Seco pelo sol e recebido pela terra

Seco pelo sol e recebido pela terra.
Era o fim da caminhada longe da sinfonia
e os pés descalços já não sequer sentiam
a dor do chão, vidro estilhaçado, que sugava
por completo a sua vida.

Seco pelo sol e recebido pela terra.
Não via nem cruz nem o diabo ou algum sinal de vida.
Era sonho ou realidade? Isso nunca saberia!
Tocavam as tompretas no firmamento declarando:
luta vencida!

Seco pelo sol e recebido pela terra.
A tal verdade absoluta, ele agora encontraria:
conversaria sobre a vida, o tempo e os astros.
Mas no fim, quando sozinho, ninguém o consolaria.

Seco pelo sol e recebido pela terra.
Era o fim desse velho diabo e das armaguras de sua vida,
era o fim da consciência e dúvida não restaria: felicidade não é de alma,
mas da matéria, que agora já falecida.